segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Triste Futuro do Pretérito
domingo, 2 de agosto de 2009
Bom gosto musical é afrodisíaco
A propósito: a canção em questão é "There is a light that never goes out", do The Smiths.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Deu no jornal
"Pássaro se choca com avião; ninguém sai ferido."
A cada dia que passa, a falta de respeito e valor à vida animal se banaliza de tal forma que ninguém mais se dá conta.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Teoria da grama do vizinho
Eu - ... A grama do vizinho é sempre mais verde.
Rose - Não é não, nego... só é diferente.
domingo, 21 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
Entre autores e atores, a voz do verso
http://www.nacaocultural.pe.
Na minha opinião, nem todo poeta é o melhor intérprete de seus próprios versos; muitas vezes, falta a entonação que é encontrada apenas na voz de outros, não poetas... Há atores que o fazem com uma propriedade capaz de surpreender e encantar os próprios autores, realizando interpretações impecáveis - caso do ator Adeilton Lima recitando os versos de Mário Quintana. No entanto, vale conferir as reproduções não só como referência e curiosidade, mas também pelo raro registro histórico, que nos dá a chance de conhecer aquela expressão dos poetas que jamais veremos em seus poemas: a sonoridade de suas próprias vozes.
domingo, 19 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Versos perdidos em Guaratinguetá
ensina-me o caminho do teu amor
que por ele trilharei
cativo.
Não me percas no caminho;
vem cá, fica mais perto
e tão perto estou
que te sinto
minha.
Venha ver-me todo o tempo
embora, por mais que venhas
seja sempre pouco
pelo muito que te amo
querida.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Chomsky, Skinner e Vygotsky sentados à mesa d'um bar*
(...)
Chomsky:
- Vem cá Skinner , por que uma criança, mesmo ouvindo os adultos dizerem "fiz" e "sei", ainda assim diz "fazi" e "sabo", seguindo naturalmente os paradigmas regulares dos verbos da 2ª conjugação, terminados em -er, quando todos os reforços seriam, nesse caso, favoráveis à primeira forma, irregular ?...
Skinner:
- Isso não contradiz o que eu penso. A princípio, ela pode até dizer "fazi" e "sabo", mas tal condição não se perdura por muito tempo, até porque, justamente graças aos reforços, essa mesma criança deixa de falar "fazi" e "sabo" e passa a falar "fiz" e "sei"... por que será, hein Noam?
Vygotsky:
- Chomsky, não acredito que isso aconteça tão "naturalmente" assim. O que ocorre é que, após essa criança se apropriar da forma cultural dos adultos de usar paradigmas de verbos regulares (bato, bati; vendo, vendi), assim que precisar usar os irregulares saber e fazer, ela os conjugará "sabo" e "fazi", como resultado da generalização dos paradigmas que ela assimilou culturalmente... Isso também serve pra você, Skinner: a criança deixa de falar "sabo" e "fazi" e passa a conjugar por meio do paradigma irregular devido ao mesmo motivo, já que, aos poucos, vai se apropriando da forma cultural devidamente consolidada entre os adultos.
(...)
Assinale abaixo quem será o vencedor do debate e, como tal, irá embora sem precisar pagar a conta:
a) Diretor Skinner, que convencerá todos na base dos reforços;
b) Mister Chomsky, que conseguirá fazer todos dialogarem numa mesma língua ideal e de acordo com uma gramática universal;
c) Kamarada Vygotsky, que mesmo com um princípio de tuberculose não abriu mão de tomar uma boa vodka russa com os demais kamaradas no bar;
d) Monsieur Piaget, que também tá bem ali no canto da mesa fumando um cachimbo só esperando sua vez de falar;
e) Outro teórico que faltou ser convidado mas que fará das idéias anteriores meros itens dicionarizados.
* inspirado num bate-boca que rolou em uma comunidade do Orkut.
domingo, 30 de novembro de 2008
Longe da tela, perto de mim

Lá estava eu no meio daquele saguão do Cine Brasília, concentrado e aguardando alguém do outro lado da linha me atender no celular, quando vejo uma menina branquiiiinha, de olhar distante, que logo de cara me pareceu familiar: tinha acabado de assistir "Proibido Proibir" no DVD lá em casa naquela tarde, e agora aquela personagem do filme estava bem ali, com aquele mesmo jeitinho de se vestir, na minha frente, na companhia de um desconhecido. Tão simples, despojada e discreta que nem parecia atrair a atenção de cinéfilos e admiradores. A minha atraiu...
Fitei-a - devidamente paralisado - por vários segundos; após um certo intervalo, tornava a fitá-la. Posso jurar que em um momento ela chegou a perceber meu contido assédio visual, mas em sua natural discrição aceitou a reverência silenciosa que eu fazia. Até porque não a devorava com os olhos, só estava ali a apreciar a beleza que, em meu imaginário, se transfigurava alternadamente, ora em atriz, ora em personagem.
Eis que nova sessão se aproximava e outros jurados do Festival vieram chamá-la para junto deles. Com o corpo paralisado, só meus olhos a seguiram, rumando ao interior da sala de projeção.
Por alguns minutos, tive a menina Flor diante dos meus olhos. Como jamais terei por horas diante de uma tela.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O negado sabor da infância
Enquanto estávamos na fila fuçando o cardápio, não pude deixar de notar uma menina que aparentava ter uns oito, nove anos. Acompanhada de seu pai, que portava trajes um pouco surrados, vestia uma roupinha igualmente surrada, e também um pouco suja. Mesmo assim, com o mínimo de dignidade que aquelas roupas podiam lhes proporcionar, percebia-se que haviam se arrumado sim para sair e passear naquele fim de semana prolongado. Ela parou bem à nossa frente, e ficou olhando pro alto da lanchonete, boquiaberta, com os olhinhos fixos para o painel repleto de fotografias de sanduíches.
Há muito tempo eu não via tanto fascínio no rosto de uma criança.
E não se tratava do encanto de uma menina já acostumada a comer de vez em sempre naquelas lanchonetes, mas de uma que nunca tinha visto algo parecido antes, em toda sua vida. Imagine só o quanto toda aquela novidade colorida atiçava sua visão e provocava seu paladar. Dava pra ter certeza disso, só de ficar ali reparando nos seus olhinhos brilhantes, semi-lacrimejantes. Dava gosto de ver naquele rosto a alegria que precedia o prazer prestes a experimentar.
Após examinar atentamente cada imagem de sanduíche - e ainda boquiaberta - ela se virou e passou a fitar seu pai, um senhor de quarenta e tantos anos, de rosto castigado por tanto trabalho suado, mas que mal dava pra pagar um daqueles caros sanduíches. De boca aberta, mas sem articular uma só palavra, ela perguntou para o pai, com o olhar, se podia escolher um daqueles sedutores bigbob's. E o pobre-pai-pobre, com uma expressão de impotência, constrangimento e lamentação, balançou a cabeça para os lados balbuciando-lhe algumas palavras que eu entendi como "esses aí não dá não, é muito caro... 'bora ver outro lugar."
Ao se afastar da lanchonete, conduzida pelo pai, só tirou os olhos do painel do Bob's pra encarar os demais painéis, do Giraffa's ao Burger King, passando pelo McDonalds. Em vão, porque após uma volta dada por toda a praça de alimentação, o pai deve ter constatado que não tinha condições de realizar o desejo da filha.
E assim desceram pela escada rolante, em direção à saída.
Precisava pensar rápido: o que eu poderia fazer? Juro que queria fazer algo por ela; mas como ir até lá dizer ao pai que eu podia pagar o lanche cobiçado pela filha, sem constrangê-lo, envergonhá-lo ou no mínimo deixá-lo incomodado ou estranhado com a minha intromissão? Tarde demais. Senti-me impotente mas me dei por satisfeito em desabafar tudo isso com Rose, enquanto nos deliciávamos com nossos sanduichões.
Pensei comigo: deve tê-la levado pra lanchar na Rodô, afinal de contas um trio viçosa sai por uns R$ 2,00 e uns quebradinhos; nada que tenha tanto encanto e sabor - pelo menos o sabor que ela queria tanto ter provado.
Momentos após sair do shopping e me despedir da Rose, vejo três crianças, todas por volta dos seis anos, crias de uma família de indigentes, correndo penduradas num carrinho de supermercado, por entre as privilegiadas superquadras da Asa Norte. A alegria e o prazer com que se divertem junto ao brinquedo improvisado devem fazê-las desconhecer todo aquele tanto de mundo ao redor que lhes é negado. Mas o que será delas quando não for mais possível ignorar todo o sabor atraente desse mundo? O que vai acontecer quando elas amargarem a mesma sensação de negação e privação vivida pela menina boquiaberta e fascinada - e logo em seguida, frustrada - com o colorido da praça de alimentação?
Não, eu ainda não esqueci daquela carinha deslumbrada com o novo mundo recém-descoberto, e ao mesmo tempo negado. Me comovo toda vez que me lembro, e me comove ainda mais não saber que fim teve aquele olhar de encanto ao descer a escada rolante.
Meu Deus, eu nunca vou saber.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Reitoria

paródia do poema "Pescaria" de Cecília Meireles*
Gritos de protesto e de ação.
Cheio de cartazes, em cada andar.
Cheiro de tinta pelo ar.
E stencils pelo chão.
Chora o reitor de amargura,
fora de sua cobertura.
Estudantes vêm e vão,
De mãos unidas pela reitoria
onde os ocupantes estão.
Seguranças e "polícias" vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
ao andar da Ocupação.
Por isso chia, de teimosia,
o pobre reitor sem reitoria.
* poema original: http://zezepina.utopia.com.br
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Equívocos literários de décadas
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Este (trecho de) poema, na verdade apenas a segunda estrofe do mesmo, foi espalhado por vários jornais e zines universitários desde o final dos anos 60. O psicanalista Roberto Freire o citou na epígrafe de seu livro “Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu” (que fez muito sucesso nos anos 70), dando crédito ao poeta russo e atribuindo ao poeta carioca Eduardo Alves da Costa sua tradução, quando na verdade era ele ninguém mais ninguém menos que o próprio autor do poema... tal erro pode ter se dado em função do próprio título desse poema, redigido em pleno 1968: "No Caminho com Maiakovski". Desde então, o equívoco durou décadas: Foi publicado em diversos jornais com crédito para Maiakovski, sendo estampado até em camisetas da campanha Diretas Já nos anos 80, virando símbolo da luta contra o regime militar. E o engano só veio a ser esclarecido de fato em meados de 2003, quando nosso poeta tupiniquim finalmente lançou um livro cujo título é o mesmo do poema: No Caminho com Maiakovski. Nele, há um longo poema de 89 versos dedicado a Maiakovski (anteriormente ele foi publicado e divulgado, juntamente com a falsa autoria, num formato de 15 versos isolados do poema original). Até pouco tempo atrás, o autor nunca havia recebido sequer um tostão pelos direitos de publicação do mesmo.
Os mesmos versos também já foram atribuídos a Gabriel García Márquez, Bertolt Brecht, Wilhelm Reich, ao estadista africano Leopold Senghor e ao pastor luterano Martin Niemöller em plena ascensão do nazismo na Alemanha, que na verdade é autor de um poema com temática curiosamente semelhante, que circula por aí, com algumas variantes (inclusive também de autoria*):
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
Mas já não havia mais ninguém pra reclamar.
Há quem diga que em algum momento dessa confusão, o poeta paulista Régis Bonvicino (http://regis.sites.uol.com.br/) tivesse reivindicado o poema como sendo dele, mas eu não acredito muito nessa história.
* Este texto do pastor luterano também circula por aí com a autoria atribuída a Bertolt Brecht.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
O $egredo

Esses dias eu peguei na locadora um lançamento recente em DVD, o incensado documentário "O Segredo". Um amigo que já tinha visto disse que não era bom. Quando o peguei na locadora, um casal se dirigiu a mim dizendo que não haviam gostado. Como a minha curiosidade é sempre mais convincente do que o gosto e a opinião de amigos e desconhecidos, eu precisava assistir não só pra descobrir o segredo como pra ter o prazer de dizer que aquilo não prestava.
Dito e feito.
Logo aos primeiros 20 minutos do filme, o "filósofo" Bob Proctor faz a seguinte afirmação:
"Por que você acha que 1% da população ganha cerca de 96% de todo o dinheiro que circula? Você acha que isso é um acidente? Não é acidente! Isso é projetado para ser assim. Esse 1% entende algo. Eles entendem O Segredo, e agora você está sendo apresentado a ele..."
Isso mesmo, senhoras e senhores, em poucas palavras, o "filósofo" Bob Proctor resumiu essa grande questão histórica de um modo que nenhum outro homem jamais ousou fazer.
Pela primeira vez na minha vida eu parei de assistir a um filme (bem) antes que ele terminasse.
O segredo me custou R$ 5,00 de locação. E os inventores da idéia devem estar contentes com o sucesso que o filme está fazendo entre os que acreditaram que as desigualdades sócio-econômicas do mundo se devem ao fato de bilhões de pobres estúpidos não pensarem positivamente!
O que é mais criminoso: deixar que um cara desses ostente o título de filósofo ou acreditar na grande revelação d'O Segredo?
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Carta a colunista do Correio Braziliense
sábado, 3 de março de 2007
Lenta Agonia
Morreu foi na embriaguez,
Aquela coisa bem devagar
Queria sentir d’uma só vez
Único tiro tudo acabar.
Nem o outro quis ceder
O descaso e a apatia
Um fim não fazia valer.
Talvez ela esperasse
Uma prosa ‘inda rolar
Ou quem sabe importasse
A mim novo verso tentar?
Espero vê-la mais feliz
Que podia tê-la feito
Numa só noite, Beatriz.
Pena é não ter consolo
Nesses três tristes quartetos
E mais dois tolos tercetos.
domingo, 7 de janeiro de 2007
Teu nome em minha boca será sempre poesia
E gostei do que vi
Vi duas, vi três
E o que eu fazia, esqueci.
Um dia - sorte minha
Um amigo nos apresentou
Foi como ganhar em loteria:
Minha alegria o mundo estranhou.
Mas n'outra noite notei com lamento
Que minha somente não podias ser:
Não tocaria seus cachos a todo momento
Apenas em um ou outro anoitecer.
Que importa? É só pensar em você
Para loooongas prosas eu escrever
Mas fazer tudo isso pra quê
Se os cachos em curtos versos faço valer?
E agora tudo que vejo
É sua foto numa tela fria.
O Rio de Janeiro, você longe e sem beijo
Me fazem pensar se uma viagem faria.
Permita ao menos uma viagem louca
Tomar conta dos meus versos, Bia:
Deixe teu nome, em minha boca,
Ser sempre poesia.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Não amarás
Lana era mais conhecida pela porra-loquice do que pelo nome. Não era preciso intimidade alguma pra que se desvendasse sua intensa vida social, ora movida a tuntistun-tuntistun, ora a forró, o que tocasse primeiro. Fácil é reconhecer uma nativa de gêmeos: conhecia meio mundo, mas parecia um enigma para a outra metade das pessoas. Um misto de atração e desconfiança era sentido pelos caras que por ela se interessavam. E não eram poucos: seus olhos verdes, a bela voz onipresente, o jeitinho sociável e rápido em fazer amigos não permitiam a qualquer um ficar indiferente por muito tempo. Bastava Lana pôr os pés pra fora de casa pra que os flertes tivessem início; flertes que aconteciam de modo tão espontâneo que nem pareciam algo intencional.
Mas dia desses, nem precisou pôr os pés pra fora. Ao arrumar-se para sair, bastou abrir a janela pra que encontrasse alguém singular. Logo ali na calçada. A troca de olhares, embora distante, permitiu uma hipnose recíproca e suficiente. De um lado o coração da geminiana batia pela enésima vez por mais um carinha. Do outro, pulsavam as emoções de Duda, um adolescente de beleza discreta, erudito e sensível. Não era exatamente tímido, mas apenas sem a audácia típica dos homens-galinha. Agora sim já era hora de pôr os pés pra fora. Terminando de se arrumar, ela sai decididamente em direção ao ponto de ônibus, como quem no fundo aguardasse incerta pelos passos de seu ocasional pretendente a segui-la. Deu certo. Ambos param num ponto de ônibus. E tem início o inevitável entrosamento, provocado por Lana, claro. A lábia da menina o seduzia ao mesmo tempo que a erudição do rapaz a cativava. Ao descer do ônibus, Duda já contava com o telefone, por meio do qual pegaria o messenger dela, seguido do perfil no Orkut. Nascia assim pelo meio virtual a ilusão movida a megabytes. As promessas de encontro via e-mails manteriam o carente Duda interessado e submisso aos caprichos de Lana.
Duda era um grande iniciado da vida acadêmica, mas inexperiente em assuntos do coração. Um jovem nerd solitário – diriam os mais venenosos. Não era nenhum deus grego, mas suas doces feições, aliadas a uma expressão de legítima intelectualidade, despertaram em Lana aquele tesão diferente que ela nunca tinha sentido antes por outro rapaz. Naquele momento ela não podia imaginar o quão momentâneo era seu interesse por ele.
Chegaram a se encontrar mais uma vez, quando a troca de um carinho discreto se fez inevitável. Mas não saíram disso. Tudo tendia para um indesejado clima de amizade, enquanto Duda não via a hora de tocar aqueles lábios. Maldito foi o dia
A terceira pessoa não tardaria para aparecer. Para a vida sempre em movimento da geminiana, encontrar Tony foi apenas uma questão de tempo. Teria o admirado antes, dançando perto dela naquela boate de sexta passada; mas foi na outra quinta no bar ali perto à faculdade que ela o encarou sentado a algumas mesas de distância. Tony não perdeu tempo. Diante da troca incessante de olhares, estendeu sua tulipa cheinha de chopp de forma a propor um brinde. Após alguns minutos, ambos já se sentavam à mesma mesa, criando vários motivos pra prolongar um longo papo, noite brasiliense adentro.
Sem dúvida, Tony não precisava se esforçar pra se mostrar interessante: seus atributos físicos o promoviam à condição de deus grego da cidade satélite. Sua altura e massa muscular chamavam a atenção do público feminino por onde quer que desfilasse. A falta de cultura era compensada por uma lábia tão convincente quanto a de Lana. Foi o encontro da sedução com a conquista.
Os dias se passaram, e Duda percebeu pela tela de seu computador conectado 24 horas à internet o distanciamento, lento e gradual, do seu grande amor virtual. Sim, virtual, embora tivessem se conhecido e encontrado fisicamente. E foi por meio dos sites de relacionamento que ele mapearia a agenda social dela, mais para descobrir algo que temia do que tentar forçar um encontro. Foi uma noite dolorosa. Constatou o que era preciso. Logo logo ele se convenceria de tudo aquilo que não conseguia admitir antes, graças à ilusão que abraçou: a vida rotativa de Lana não permitia a relação estática de um romance a dois. Ainda mais com um parceiro que lhe tomasse a liberdade dos encontros. Precisava estar sempre em busca do mais atraente, do mais completo, do mais belo. E quase sempre encontrava o que buscava. E se deleitava.
Para Duda, era tudo o que precisava saber sobre o amor. Não tentou aprender mais. Não se sabe se experimentou mais dores e desilusões antes de Lana, mas a lição que ela lhe proporcionou parecia ser definitiva. Lição que ele fez questão de retribuir com um poema, enviado, claro, por e-mail, num momento em que ela nem fazia mais questão de aguardar por suas mensagens. Ali, ele parecia descrever toda a trajetória de um amor nascido frustrado:
Ainda que seja tarde
[Duda Salles]
Foi numa tarde inesperada
Como surpresa de criança:
Alguém de alma abençoada
Apareceu na minha andança.
O esverdeado olhar
À tentação nos faz ceder
Essa voz tão singular
Todo poema devia ler.
A simpatia genuína
A risada que encena
É presença que fascina
Faz o dia valer a pena.
O toque, o abraço
Pude logo sentir
O jeitinho, sem embaraço
Tudo vem me seduzir.
Tarde tão bela assim
Nunca tinha vivido
Que fizesse por mim
Instante tão colorido.
Mas esse instante risonho
De repente foi embora:
Naquele belo sonho
Me acordaram antes da hora.
Outra noite, cheia de vida
Queria sempre dançar
Mas que barreira indevida!
Comigo não faria par.
Na companhia de um estranho
Entrega-se à dança com alegria;
Seu olhar e sorriso tamanho
Completam a bela coreografia.
Você no colo de outro a se pôr
Não me trouxe nenhuma dor
Duro foi não ter mesma chance
Que outro logo teve ao alcance.
Quando me fiz ausente
Foi pra não importuná-la:
Não por ser indiferente
Livre pra amar queria deixá-la.
Coragem busquei
Para a verdade mostrá-la:
Sempre a desejei
Mas sem graça temia deixá-la.
Ainda assim era preciso
Fazê-la ver meu desejo
Um poema curto, conciso
Que valesse ao menos um beijo.
Mas curto o poema não queria
Por Lana, eu rimava toda vida
Um momento com ela esperaria
Antes da inevitável despedida.
Como o convite não foi aceito
Desgostoso hei sofrido
Mas fique certa que em meu peito
O carinho teria permanecido.
Ao fim dos versos, seus olhos ensaiavam um lacrimejamento discreto. Como se experimentasse um remorso, e em respeito a isso, parou e silenciou por alguns instantes. Até que seu celular tocasse novamente, e o convite de Tony pra se encontrarem de novo a fizesse virar a página daqueles tristes e irrecuperáveis versos. Após isso, nunca mais trocariam uma única mensagem sequer. Lana não o responderia, nem ele outras mensagens enviaria. Perderam-se todos os contatos via internet. Teria morrido, se suicidado ou apenas desistido? Descanse em paz, Duda. Viva e deixe viver. Entre o carinho e a companhia do poeta e o tesão de estar sempre à procura do mais belo, Lana optou pela poesia das boates e a prosa dos bares.
domingo, 2 de julho de 2006
Vive le Brésil
Desta vez, o carrasco não foi o mesmo Napoleão de oito anos atrás. Mas este ainda estava na seleção do Galo, e comandou a eliminação do Brasil na Copa por 1 a 0, gol de um tal de Henri. Sim, desta vez não foi Napoleão quem derrubou toda uma nação por 3 a 0. Foi um Robespierre, que com um só golpe guilhotinou toda a seleção brasileira.
No dia seguinte pela manhã, ainda havia quem precisasse terminar de estourar seus últimos fogos de artifício, e de tocar mais uma vez aquela corneta ensurdecedora. Só por uns dois segundos. (Até 2010, ela ficará guardadinha, a menos que o time dele se destaque durante o Campeonato Brasileiro). Nesse mesmo domingo matinal, no campinho ao lado do meu bloco, vários moleques batiam uma pelada, como se nada de tão triste e desanimador tivesse acontecido ontem com eles. E não deve ter acontecido mesmo. Não. Nada que pudesse destruir o sonho redondo deles.
quarta-feira, 17 de maio de 2006
O poder discursivo da meleca
Uma meleca apertada contra a parede e arrastada alguns centímetros em diagonal, na parede (limpinha) que sustenta o mictório. Impressa ali enquanto o mané tirava a água do joelho.
Não é a primeira, nem será a última.
Símbolo da liberdade digital de expressão, de se poder meter o dedo onde bem entende.
Aquela meleca ali me dizia muita coisa.
Muito mais do que todas aquelas palavras pichadas nas portas do banheiro.
Era o discurso concretamente redigido do indíviduo que queria te dizer:
"Faço isso não por molecagem, mas por que posso. E você não pode fazer nada, só vai ficar aí olhando, achando que pode mudar o mundo. E você também é tão nojento e desprezível como eu, só não tem coragem de assumir que nem eu, seu covarde! Morra frustrado, mané."
Foi isso o que a meleca me disse.
Bleargh. Que nojo dessa sociedade, onde uma meleca se faz veículo de um triste e real discurso.


